Metodologia de Investigação: Estudos Etnográficos

Programa Doutoral em Multimédia em Educação (2008-2011) | Universidade de Aveiro | UC - MIME (Março a Junho de 2009)
[Wiki do grupo ApeMania: Damiana, Madalena, Marlene, Rafael, Vítor ]

2. Procedimento Metodológico Etnográfico


2.1 Definição

Etnografia é uma palavra de origem grega que associa os termos etnos (raça, cultura) e grahein (escrita).

"Ethnography is a qualitative research method that is used by anthropologists to describe a culture. Culture has many definitions but usually consists of origins, values, roles, and material items associated with a particular group of people. Ethnographic research, therefore, attempts to fully describe a variety of aspects and norms of a cultural group to enhance understanding of the people being studied."
Michelle Byrne De Caria


Uma definição consagrada de etnografia entende-a como uma forma de investigação que recolhe dados com a preocupação de compreender a (i)racionalidade do outro, o outro cultural, o outro submisso, o outro iletrado, o outro não ocidental (Shweder, 1997). Compreender o outro supõe contrariar a representação social (inclusivé científica) de que os dominados e os «estranhos» seriam indignos, menores, inferiores, deficitários, pobres em recursos e capitais, i.é., seriam incapazes de se construírem de modo autónomo no plano cognitivo. Tal orientação assenta na ideia de que a objectividade científica não depende de uma posição de imparcialidade explicativa (Caria, 2000d).

Esta definição está, porém, em desuso, pois hoje a etnografia preocupa-se também com o banal e o familiar, o que se encontra mais próximo, permitindo identificar a cultura daquilo que aparenta ser igual ou comum a «nós». Assim, a etnografia permite ao investigador ver-se naquilo que já pensava conhecer, evidenciando o seu etnocentrismo.




2.2 Caracterização


A pesquisa etnográfica tem semelhanças com qualquer outra investigação qualitativa, na medida em que o investigador se torna objecto do seu próprio estudo. Ele, além de observar, interage com a cultura sobre a qual estuda. Na etnografia, o investigador tem um posicionamento periférico relativamente às dinâmicas de interacção social. O quotidiano é apreendido por referência central à racionalidade contextual dos «nativos» e não às representações sociais ou às racionalidades importadas do exterior ou situacionalmente accionadas em entrevistas pontuais (Caria, 1995b). Isso não invalida que "goze" de uma certa centralidade, uma vez que o investigador no terreno remete para uma dinâmica social em que ele, ao esquecer ou dissimular a sua incompetência nos «saberes-fazer de dentro», se torna, quando está presente, no pólo central da acção quotidiana, não chegando a banalizar a sua presença (Caria, 1999a).

Tal como as histórias de vida (construção identária, por via da narratividade de um trajecto de vida), e a investigação-acção, a etnografia associa a produção de conhecimento sobre o real com efeitos formativos sobre os actores sociais em estudo (Caria, 1995b). O etnógrafo não se limita a observar, a agir e a ouvir; faz, além disso, perguntas adequadas e pertinentes ao contexto, ainda que estas não sejam as que os autóctones verbalizam no quotidiano sobre o «nós». O investigador faz os «nativos» pensarem e verbalizarem sentidos e deterem-se sobre aspectos das suas vivências com os «outros» que, inevitavelmente, interrogam a sua identidade social e permitem estimular a sua reflexividade enquanto cidadãos. Daqui pode-se afirmar que a produção de conhecimento sobre o real, permitida pela etnografia, não se destina a encontrar regularidades ou mudanças sociais, das quais os actores em estudo são inconscientes. A etnografia valida as construções teóricas que operam como tradução, num plano mais abstracto e geral, das correspondentes à consciência prática e discursiva dos autóctones sobre as suas condições sociais de existência.

O investigador deve optar por este tipo de metodologia, se tem definido como objectivo descrever uma determinada cultura.

A pesquisa qualitativa de natureza etnográfica coloca o observador num contexto social.Para tornar um contexto visível, a pesquisa serve-se de práticas interpretativas que dependem das questões que a norteiam. As práticas interpretativas mostram o mundo através de uma série de representações: entrevistas, conversas, fotografias, notas de campo, gravações, etc. (Agar, 1980; Saville-Troike, 1982; Gumperz, 1982; Erickson, 1990).

O investigador estuda o ambiente natural e interpreta os fenómenos que ali ocorrem, considerando a construção social da realidade como um processo em permanente transformação (Minayo, 2002). Esta pesquisa qualitativa pretende compreender a realidade, considerando-a como uma construção do ser humano, atenta ao processo e ao significado que os participantes atribuem aos factos (Bastos, 2007).

A etnografia centra-se numa análise holística do social, análise baseada na construção do social do quotidiano, partilhado em rotinas de acção e negociado em consensos e conflitos sobre regras de significação e de uso legítimo dos recursos, e não em qualquer versão «essencialista» e/ou exótica da cultura local. No entanto, dada a complexidade das sociedades (que desenvolveram processos endógenos de modernização), implica que a preocupação pela «totalidade» esteja reduzida à analise de actividades colectivas particulares que correspondem a segmentações institucionalizadas do espaço-tempo societal (Caria, 2002).




2.3 Como se fazem Estudos Etnográficos


A investigação etnográfica pressupõe um contacto directo e prolongado com os actores sociais cuja interacção constitui o objecto de estudo (…) [procurando] entender o sentido que os sujeitos conferem à sua própria acção, enquadrando aquele sentido e esta acção nas suas condições sociais e materiais de existência’’ (Silva: 2003). Etnografia pode significar esse método de estudo ou o resultado mesmo desse estudo, ou seja, o processo e o produto.

Segundo Ricardo Vieira no prefácio a Etnografia e Educação (2003), a segunda metade do século XX abriu o espaço para a etnografia como metodologia científica. Segundo ele, o etnógrafo ‘’não só tem de compreender os outros, mas também de ir ao ponto de compreender a compreensão dos outros, ou seja, como eles compreendem’’.

De acordo com Boaventura Sousa Santos (1987): ’A ciência moderna não é a única explicação possível da realidade e não há sequer qualquer razão científica para a considerar melhor que as explicações alternativas da metafísica, da astrologia, da religião, da arte ou da poesia’’, pelo que o olhar não positivista sobre a realidade é tão respeitável como outra forma de a encarar, embora a sociedade actual tenha ainda ‘’uma falsa imparcialidade que continua a viver do mito positivista de que a ciência teria uma superioridade epistemológica face a outras formas de conhecimento’’ (Caria:2000).

Pedro Silva (Silva: 2003) crê que a diferença entre o paradigma positivista e o paradigma interpretativo reside, acima de tudo, na ênfase, pelo que não se pode estabelecer uma relação directa entre positivismo e métodos quantitativos. Daniel Bertaux, citado por Silva (2003), traduz esta luta entre paradigmas como o pátio da universidade onde estudou e que dividia duas alas do edifício (numa estudavam-se as técnicas estatísticas; na outra sobressaía a interpretação holística). O pátio era um deserto – não havia espaço para a Metodologia, ‘’o lugar onde as teorias se confrontam com as observações, onde os conhecimentos empíricos se articulam em conhecimento teórico’’. Esse pátio, preenchido, estabeleceria o continuum entre qualitativo-quantitativo (Lessard-Herbert: 1994). O investigador, ao seleccionar a que paradigma dar ênfase, está a definir uma abordagem, na certeza de que estará a deixar de lado outros olhares, mas tomando as decisões que lhe parecem mais acertadas, e, citando Hammersley & Atkinson, de acordo com as finalidades a que se propôs (Silva: 2003).

Um estudo etnográfico (normalmente) pressupõe a presença de alguém de fora, um observador, num grupo específico, em contexto definido, durante um determinado periodo de tempo. O papel deste "estranho" ao grupo observado, consiste em tentar compreender a realidade em que se infiltrou e da qual depende todo o seu estudo e resultados que daí advêm. Toda a análise e interpretação feita do objecto de estudo é subjectiva e tem implícita a visão pessoal do investigador, podendo esta ser fruto de uma experiência denominada "participação-observação" (em que apenas assistiu) ou de uma "observação-participante" em que interagiu e integrou a vida do grupo.

Modernamente, o etnógrafo, ao tentar compreender, tem para isso que «viver dentro» do contexto em análise, aprender a lidar com os outros e não se transformar num autóctone. A etnografia carece de um período prolongado de permanência no terreno, cuja vivência é materializada no diário de campo, e em que o instrumento principal da recolha de dados é a própria pessoa do investigador, através de um procedimento geralmente designado por "observação-participante". Luis Fernandes, segundo Caria (Caria, 2002), mostra como o etnógrafo é objecto de processos de socialização local que obrigam a evidenciar as suas inseguranças e perplexidades e a relativizar as suas origens culturais. Ele está dentro para compreender, mas ao mesmo tempo tem de estar fora para racionalizar a experiência e poder construir um objecto científico legítimo.

Uma metodologia é uma construção estratégica que articula teoria e experiências para abordar um objecto (Caria, 2002). Na metodologia da investigação etnográfica, Caria propõe conjugar e fazer coexistir a linguagem da experiência, de estar e pensar no trabalho de campo, com a linguagem da teoria, que permite objectivar e racionalizar o que ocorreu e não apenas depender o estudo da subjectividade e emocionalidade dos seus autores e protagonistas, como se se tratasse somente de desenvolver um racionalidade estético-literária, contrária à consideração da especificidae do social no debate sobre objectividade científica. Segundo o mesmo autor, interrogar a etnografia como metodologia de investigação supõe actuar numa zona de fronteira entre a ciência consagrada e instituida (os produtos científicos) e os seus usos contextuais em diferentes disciplinas, convocando a cultura e identidade científico-disciplinares para uma zona de transacção comum, por vezes impura e heterogénea. Ele advoga a passagem da consciência prática para uma consciência discursiva contextualizada de forma a «culturalizar» a teoria social nos investigadores.

Um estudo etnográfico deve conseguir jogar com quatro conceitos primordiais: o indivíduo, a comunidade sócio-cultural, o ambiente e o tempo, ou seja, respectivamente, anthropos, ethnos, oikos e chronos.
  • O anthropos analisa o “comportamento do indivíduo como expressão da sua actividade mental, mas não no sentido psicológico, isto é, como actividade mental mesma e também, em sentido antropológico, como contributo determinante do processo cultural. (…) O indivíduo está na origem e é o vaso capilar da cultura. «O indivíduo», escrevia Linton, «é a variável irredutível de todas as situações sociais e culturais»” (Bernardi: 1974).
  • O ethnos insere o indivíduo na comunidade, uma vez que “Embora a origem capilar da cultura se aprenda na acção do indivíduo, a mesma natureza individual tem limites que anulariam a eficácia da sua acção e, consequentemente, a tornariam vã, se não encontrasse possibilidades de acolhimento e de expansão junto dos outros indivíduos. A cultura, sob este ponto de vista, representa o resultado da colectividade” (Bernardi: 1974).
  • O oikos (do grego «casa») diz respeito a “modos e formas pelos quais o ambiente se reflecte na cultura. O ambiente inclui toda a natureza externa, a configuração topográfica dos lugares (das montanhas às estepes, dos rios aos mares), o clima e todas as manifestações atmosféricas, a vegetação espontânea e cultivada e finalmente a fauna no sentido mais vasto e múltiplo de vida animal. O homem não se encontra sozinho sobre a terra. No desenvolvimento da sua vida, ele está inserido numa vastíssima gama de relações” (Bernardi: 1974).
  • O chronos está “intimamente ligado ao processo estruturador da cultura, até quase se identificar com ela (…) Das três dimensões do tempo, passado-presente-futuro, são sobretudo o passado e o presente que assumem, em relação à cultura e aos fenómenos sociais, um valor significativo” (Bernardi: 1974).
Estes quatro factores inter-relacionam-se em pares: anthropos-ethnos e oikos-chronos. “O anthropos, com a convergência dos indivíduos em sociedade, dá vida ao ethnos e o ethnos gera o anthropos, oferecendo-lhe um âmbito completo de vida” (Bernardi: 1974). Bernardi (1974) resume esta relação entre antropos (A), ethnos (E), oikos (O) e chronos (C) no seguinte esquema:

oikos.jpg
O diagrama da cultura: anthropos-ethnos; oikos-chronos

A investigação qualitativa etnográfica segundo as orientações (Ludke e Andre 1986), são:
1 – As questões são estudadas no seu ambiente natural, sem manipulação intencional dos dados. As observações incluem as pessoas, os gestos, as palavras, etc. ligadas ao seu contexto.
2 – Todos os dados observados são relevantes para a compreensão da questão em estudo.
3 – O dinamismo a que as pessoas estão sujeitas deve se considerado pela investigação.
4 – Os significados atribuídos pelos participantes são muito importantes para o trabalho do investigador porque guiará todo o seu percurso.




2.4 Passos


Todos os procedimentos de recolha e tratamento de dados são possíveis, desde que subordinados à preocupação de compreender o outro, através da reflexibilidade do investigador para racionalizar a posição social de cientista e para relativizar as suas origens culturais de cidadão. Os procedimentos e saberes operatórios da etnografia são pluri-técnicos e, do ponto de vista epistemológicos, são híbridos.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

2.4.1 Pesquisa Etnográfica

O primeiro passo de um etnógrafo deve contemplar uma análise do estado da arte no tema ou na cultura que pretende investigar. Como diz Mauss (1967), "O jovem etnógrafo que parte para o local deve conhecer o que se sabe, a fim de trazer à superfície aquilo que não se sabe". Com isto, segundo Bernardi (1974), Mauss pretende guiar o etnógrafo, numa primeira fase, para um estudo detalhado da "problemática de tal modo que possa encontrar motivo e assunto de pesquisa, de aprofundamento e de verificação nas indagações que deverá empreender (...) premissa essencial e um óptimo estímulo para saber ver os problemas e conduzir as investigações com clareza de intentos e conhecimento dos critérios, transmitidos pelos grandes mestres (...) O antropólogo não nasce nem se improvisa, mas faz-se" (Bernardi: 1974) e, numa segunda fase, para a "leitura e conhecimento da bibliografia que eventualmente exista sobre o assunto da sua pesquisa (...) ainda que o valor dos escritos seja insuficiente, o que mais importa é chegar a conhecer «o que já se sabe», para poder descobrir o que ainda não se sabe" (Bernardi: 1974).

Uma fase crucial para uma investigação etnográfica é aquela que se prende com o financiamento da investigação: pode obter-se mais facilmente apoios depois de especificado o assunto da pesquisa: “Nesse caso, será necessário formular com uma certa precisão o tema anteriormente escolhido. Todavia, não se formalize excessivamente, porque a verdadeira escolha definitiva amadurecerá no próprio decurso da pesquisa, quando se está a trabalhar no terreno. Por outro lado, é uma norma prática bastante útil «fazer o ponto da situação», todos os dias, quanto ao trabalho realizado, não tanto para o analisar (tarefa própria de um estádio posterior), mas sim para extrair directivas exactas para aquilo que falta fazer (Bernardi: 1974).


... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

2.4.2 Estudo de Base Etnográfica

No domínio da etnografia, “A primeira convicção que se tem vindo a afirmar, precisamente como resultado da experiência, contempla o estudo de campo, como observação participante, uma necessidade essencial” a fim de “captar ao vivo a dinâmica cultural nas suas origens antropémicas e etnémicas, tanto nas sociedades iletradas como nas letradas, nas simples e nas complexas” (…) O adestramento no campo, embora limitado no espaço e no tempo, representa uma experiência esclarecedora para se chegar a uma avaliação comparativa dos fenómenos culturais. É necessário, para isso, clarificar bastante o próprio campo da pesquisa antropológica e o significado da observação participante. (Bernardi: 1974).

O trabalho de campo é estruturado a partir de métodos e procedimentos indutivos para a escolha do percurso da pesquisa. Não há hipótese prévia, a entrada no campo não tem como objectivo encontrar evidências para abstrações previamente elaboradas. As delineações dos temas e categorias seleccionados na pesquisa podem modificar-se, muitas vezes, através da realização do trabalho de campo (Bastos, 2007).

Sendo o objectivo principal destes estudos compreender os outros, é comum que se procure estudar uma cultura alienígena. Porém, convém entender que “Pode ser alienígena também uma forma particular da própria cultura nacional ou continental” (Bernardi: 1974).
O facto de ser alienígena levanta uma barreira intransponível, seja por que lado for. O investigador deverá estar consciente desta circunstância e aceitá-la, não só devido à modéstia necessária para aprender dos outros mas também devido à posição separada requerida para a perspectiva de análise científica (Bernardi: 1974). No entanto, apesar de poder até fazer amigos entre os indivíduos em estudo, “nunca poderá adoptar os seus valores culturais. Se o fizesse, perderia aquela posição sem a qual tudo o que escrevesse não teria valor científico" (Fortes: 1945, citado por Bernardi: 1974).

Contudo, parte-se do princípio de que qualquer actividade científica de observação “traz consigo, inevitavelmente, a carga de valores, preferências, interesses e princípios que orientam o investigador.
Não há a possibilidade de se estabelecer uma separação nítida e isenta entre o investigador e o que ele estuda "(Ludke e Andre 1986: 3), (Bastos, 2007).

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...


2.4.3 Micro-análise de Dados

A micro-análise é o principal instrumento da Pesquisa Etnográfica. A micro-análise estuda um evento particular que envolve determinado grupo e as relações sociais entre os seus membros (Lutz, 1983; Mattos, 2001). A pesquisa etnográfica tem como objectivo registar e analisar aspectos da prática da linguagem na comunidade de fala na qual tais aspectos são situados, observando normas subjacentes ao uso da língua que são culturalmente compartilhadas por membros desta mesma comunidade. Investiga-se como os significados sociais são criados e situados na rede de relações tecidas numa comunidade (Saville-Troike, 1982).
Entre as tarefas mais correntes do investigador, encontra-se a de redigir um
diário pessoal. Naturalmente, cada um tem a liberdade de escrever as notas que quiser, contudo, ao dizer «pessoal», não se pretende dizer íntimo; pelo contrário, quer-se dizer que ao investigador compete registar, pessoalmente, as suas próprias observações e os seus próprios. (…) Para posterior análise, é importante ir elaborando ficheiros. Assim, quando se chegar ao ponto da revisão dos materiais recolhidos, “é fácil ordenar sistematicamente os argumentos escolhidos, segundo um plano de trabalho. O ficheiro oferece uma certa facilidade para o primeiro esboço de um relato sobre a pesquisa” (Bernardi: 1974).

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

2.4.4 Análise das Conversas e Interacções

A fase de estabelecimento de interacções a estudar é deveras importante, ainda que possa constituir uma tarefa complexa e complicada, pois exige “uma disponibilidade ideológica que leve a enfrentar as inevitáveis dificuldades de contactos totalmente estranhos a fim de superar a nuerose de que argutamente fala Evans-Pritchard” (Bernardi: 1974), o qual transcreve um diálogo seu com um jovem Nuer, que o leva a proclamar: “Desafio o etnólogo mais paciente a enfrentar este género de resistência. Fica maluco." (Evans-Pritchard: 1940).

De entre as relações a estabelecer, merecem especial destaque as relações com as autoridades locais: “É importante criar, desde início, relações de confiança e respeito recíproco com a autoridade local. Necessário se torna informar-se bem sobre as eventuais normas de pesquisa científica para as respeitar sem incompreensões. Todavia, uma vez completados os passos necessários, convém manter-se o mais afastado possível, sobretudo de compromissos políticos, e manter a própria liberdade". Mas Bernardi recomenda: "Pode haver situações que, não obstante todas as tentativas mais atentamente cuidadosas, se revelam impenetráveis; nestes casos, é necessário saber retirar-se de boa vontade".

Outro pressuposto metodológico da metodologia etnográfica aconselha a que cada estudo seja sempre acompanhado de um estudo de uma segunda sociedade (comunidade, grupo): “Só com estes pressupostos o estudioso poderá estar à altura de enfrentar argumentos comparativos e abrir-se à problemática essencial e às grandes sínteses com um espírito e uma larga visão que se tornaram válidas, não obstante as notabilíssimas insuficiências, as intuições dos grandes mestres (Goody: 1972, citado por Bernardi: 1974).

A metodologia da análise conversacional e interaccional caracteriza-se pela micro-análise de dados naturais, geralmente colhidos em estudos de base etnográfica.


... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...


2.4.5 Abordagem Qualitativa e Interpretativa dos Dados

A última fase do estudo consiste na análise e avaliação do material recolhido, e posterior tratamento.
Na fase final, os ficheiros constituídos ao longo do trabalho de campo revelar-se-ão preciosos. Frequentemente, reconduzirão o investigador ao terreno, a fim de ultrapassar dúvidas, incertezas, lacunas.

Bernardi (1974) lembra que, “antes de um eventual regresso ao campo de pesquisa, é conveniente verificar ainda a bibliografia existente, mas sobretudo submeter à leitura e à discussão com outros colegas o trabalho realizado. (…) A última elaboração para a apresentação do material recolhido resultará, assim, como o fruto maduro de uma atenta verificação dos factos e de uma interpretação que, embora nova e pessoal, não é apressada” (…) Segue-se que o trabalho principal será, inevitavelmente, o de escrever” (…) As monografias assim elaboradas constituem sempre postos de apoio para ulteriores confrontos e avaliações. (…) Mais frequentemente e talvez com melhor resultado, a tarefa tem sido empreendida por outros pesquisadores; (…)

Este género de pesquisas tem um carácter compulsório: dar relevo às transformações ocorridas no período entre duas pesquisas e estabelecer os mecanismos dinâmicos que as determinaram”.


rodapa.png